“O DOCE PREFERIDO DO BRIGADEIRO”

**TEXTO FEITO EM DEZEMBRO DE 2012 PARA O BLOG “CMYKCULTURAL” (criado pra avaliação na Pós-graduação em Jornalismo Cultural da FAAP)

O doce feito com chocolate em pó, leite condensado e manteiga já não é mais a única guloseima em festas e eventos, mas ainda é o preferido de crianças e até adultos

Por Flávia Rezende

Levante o braço quem nunca comeu um docinho de chocolate. Difícil encontrar alguém que não tenha experimentado a gostosura do doce “negrinho”. O cheiro forte de chocolate, a cremosidade, a textura macia e homogênea ou até aquele puxa-puxa que gruda nos dentes, são, muitas vezes, irresistíveis. E, de qualquer jeito, o brigadeiro faz a festa de quem curte uma experiência mais açucarada.

Feito somente com três ingredientes fáceis de encontrar em qualquer mercadinho de bairro, a mistura de chocolate em pó, manteiga e leite condensado deixa muitas crianças – e adultos – com água na boca. Não é por acaso que as festas de aniversário sempre têm um representante desse doce que virou estrela.

Além das reuniões da criançada, o brigadeiro é democrático. Ele está na noite do pijama das adolescentes, no cineminha do casal de namorados, na casa da avó. Se alguém quiser adocicar o dia, esse doce é uma opção simples, barata e gostosa. E para quem não quiser ter o trabalho de fazer, ainda é fácil de encontrar prontinho para comer.

O que pouca gente sabe é de onde surgiu essa delícia. Não se sabe ao certo, mas a história não-oficial registra que o brigadeiro foi inventado no Brasil depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Naquela época, era difícil – e caro – conseguir leite fresco para se fazer receitas de doces. Foi quando chegou da Suíça um tipo de leite ainda desconhecido nas terras tupiniquins: o leite condensado (conhecido como leite da mocinha por conta da mulher estampada na embalagem, que depois virou o “Leite Moça”). Aí, descobriram que a mistura desse líquido mais grosso e tão açucarado que arde na garganta com chocolate resultava em um docinho bem charmoso e gostoso.

Só que ninguém pensou em um nome para as bolinhas de chocolate. Veio a calhar que, nesse mesmo período (década de 50), aconteciam as eleições para a Presidência da República. Um dos candidatos era o Brigadeiro Eduardo Gomes. Na campanha, ele usava a propaganda “vote no Brigadeiro que é bonito e solteiro”. Como os adversários não eram lá um exemplo de beleza (ele disputou com Eurico Gaspar Dutra e Getúlio Vargas), o militar fez sucesso entre as mulheres. Em homenagem ao candidato, em vez de se entregar o tradicional “santinho” de político pelas ruas do Rio de Janeiro para ganhar votos, as eleitoras que trabalharam na campanha distribuíram o docinho. Foi quando aquela massa de cor escura começou a ser divulgada como o “doce preferido do Brigadeiro”.

Pouco a pouco, o negrinho, como ainda é denominado o doce no Rio Grande do Sul, foi mudando e abreviando o apelido. Passou de “doce preferido do Brigadeiro” para “preferido do Brigadeiro” e depois ficou só “brigadeiro”.

Essa é a versão mais contada pelos estudiosos da culinária brasileira, mas, entre as más línguas, a história espalhada pelos adversários do Brigadeiro Eduardo Gomes ainda nos anos 1950 é outra. Falavam-se pelas ruas que Eduardo Gomes foi ferido durante uma rebelião e que o tiro havia atingido os testículos do Brigadeiro. Como a receita do docinho não utiliza ovos, o nome seria uma piadinha maldosa com o político.

Independente de qual seja a origem verdadeira do nome, uma coisa é certa: o brigadeiro conseguiu até espaço no dicionário, tamanho o seu sucesso. Se até os anos setenta o vocábulo era descrito somente como “oficial comandante de uma brigada”, ao que tudo indica, depois garantiu seu lugar com o sentido de “certo doce feito com leite condensado e chocolate geralmente sob a forma de bolinhas cobertas de chocolate granulado” (definição do dicionário Houaiss). Agora, até no exterior, a palavra “brigadeiro” é considerada de origem brasileira.

Hoje em dia tem brigadeiro pra todos os gostos. Dá para encontrar o doce com recheio de nozes, avelã ou frutas. Com cobertura de limão e até coco queimado. Tem ainda a versão em copinho, enfeitado com bichinhos, uma infinidade de modelos. Mas, não tem jeito, o docinho mais amado de todos ainda é o tradicional brigadeiro de colher.

 

O velho moço

Nem a diferença de fuso horário atrapalhou os planos desse senhor de 86 anos. Da Áustria, seguiu para o Chile, de lá para a Argentina, depois o Rio de Janeiro, mais três horas e meia até Manaus no Amazonas e ainda algumas horas de barco até a cidade de Barreirinha, a 372 km da capital amazonense. Tudo isso em duas semanas. “Sabe, estou cansado, mas nem por isso paro quieto”. Thiago de Mello não tem problema em ir de uma megalópole do outro lado do mundo a seu pequeno município no meio da floresta. “Eu viajo de canoa, viajo de avião, viajo a cavalo, viajo de navio”.

É um homem sem frescuras. Exceto pela única a que se dá direito: vestir-se sempre de branco. Thiago nasceu em 1926 e nessa época o branco era cor que representava o luxo e isso sequer passava pela cabeça dele. Se fosse em sua cidade natal, usar ou não usar branco não faria a menor diferença. Mas era Manaus. E na “cidade grande”, onde Thiago passou a adolescência, era cultura usar o branco para o casamento, para o namoro, para o batizado, “cada solenidade era o branco”. Ficava olhando as mocinhas alvas e os moços galanteadores, todos em seus trajes mais claros possíveis. Sempre quis também. “Mas, é que eu era pobre e não tinha dinheiro pra botar minha roupa branca pra ir pra festa aí ia com a farda do ginásio.” O dia em que usou pela primeira vez foi uma felicidade só. Depois disso, não quis mais tirar a roupa e nem trocar de cor.

Da brincadeira do branco, a cor trouxe tanta paixão que se tornou até verso de poema. “Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida o uso do traje branco”, diria Thiago em 1977. O que não imaginou, era que tal declaração faria desse poema o mais conhecido de sua longa carreira de escritor. Estatutos do Homem já foi traduzido para mais de trinta idiomas, ganhou edição de luxo e até hoje encanta o mundo. Mas esse negócio todo de ter reconhecimento, de ter ganhado muitos prêmios, inclusive o Jabuti, não deslumbra esse senhor de palavras simples. “Pra mim isso é pequenininho. Não vale nada.”

Se qualquer pessoa tem um livro de Thiago de Mello, leu e gostou “isso é o mais importante”. Teimoso desde sempre, foi na contra mão de outros poetas famosos e eis que deixou de lado essa ostentação de títulos. Abriu espaço para somente um que está pendurado na parede de sua casa, mas só porque lhe lembra um ídolo da pré-adolescência. Aos doze anos de idade, já idolatrava Tiradentes “pela coragem dele”. Não esconde a alegria que seria conhecer aquele que, como ele mesmo afirma com vontade, “foi o primeiro a ter a ideia de fazer do país uma nação”. Por isso quando, muitos anos mais tarde, recebeu a Grande Medalha da Inconfidência Mineira das mãos de Tancredo Neves, na época ainda governador do estado de Minas Gerais, para ele foi como se tivesse ficado um pouco mais perto daquele a quem tanto admira. Mas isso foi há mais de vinte anos.

Prêmio recente veio no fim do ano passado no Rio de Janeiro, durante uma exposição de um artista que gosta muito. Thiago estava lá, aproveitando o vernissage quando chegou perto um casal e a mulher declarou “que felicidade, nós temos todos os seus livros, mas nenhum com a sua assinatura, por sorte temos um exemplar aqui”. Enquanto ele escrevia para o casal seu nome com letras infantis na primeira página do livro, a mulher deixou escapar a declaração mais bonita que Thiago já havia escutado. Ela e o marido gostaram tanto do “Estatutos do Homem” que na hora do casamento pediram para o padre ler umas estrofes do poema no lugar do juramento comum. “Quase que perguntei se de noite foi bom”. A moça, como se tivesse ouvido o pensamento dele falou logo: “foi tão bom que aqui está esse rapaz de quatorze anos que chama Thiago por sua causa”. Não dá para negar: deve ser uma responsabilidade enorme ter alguém com o nome em sua homenagem. “Esse é o prêmio que faz com que eu escreva melhor”, declarou e depois se calou. Foram longos segundos de silêncio…

“Sabe, eu estou cansado”, falou novamente. Pareceu uma eternidade até Thiago falar de novo. A voz se arrastava num tom tão baixo que era difícil entender. Como se fosse preciso falar baixinho e devagar para virar um mantra. Ou talvez fosse simplesmente o cansaço de tantas viagens seguidas.

Quem sabe também esse ir devagar quase parando fosse por conta do calor por que era uma manhã quente, como quase todas as outras na capital amazonense. Ainda que estivesse dentro de um parque florestal cheio de árvores e sombra, [Bosque da Ciência do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, INPA], o calor deixava o ar difícil de respirar e por conta disso ele se lembrou da sua maior preocupação na atualidade: o aquecimento do planeta Terra e as consequências disso para a floresta amazônica. “Eu não defendo a floresta porque eu nasci nela não. Tenho um encantamento. Eu defendo porque é o maior manancial de biodiversidade e que não é estudado”.

Thiago não se cansa de falar da floresta. A cada minuto surge um novo pensamento. “A floresta é a maior fonte de vida”. Ponto. “Temos que conscientizar e parar esses empresários perniciosos, cheios de cobiça que queimam a floresta para criar gado e plantar soja.” Ponto. “É um crime ambiental contra a vida”. Ponto final.

Esse discurso tem um motivo digno e antigo. Depois da temporada em que morou na Alemanha e na França, não agüentou o fato das universidades desses dois países europeus conhecerem muito mais sobre a depredação da floresta e sobre como os índios Ianomâmi estavam sendo destruídos, do que ele próprio que era do Brasil. Foi então que decidiu voltar para Barreirinha, cidade no meio da floresta, banhada pelo Rio Amazonas. “Eu fui pra floresta para escrever, não só para escrever sobre a floresta enquanto natureza vegetal, escrever sobre a natureza humana, sobre a gente da floresta”. Mesmo contra a vontade de muita gente, Thiago voltou pro lugar onde nasceu. O editor dele insistia em dizer “mas lá ninguém lê” e Thiago, firme na decisão, falava: “o Brasil inteiro é um dos países mais atrasados em leitura, não é só lá”. E lá foi ele, aprender com os ribeirinhos que mal sabiam ler e escrever, mas tinham muito a ensinar sobre a floresta.

Dos sessenta e cinco anos como escritor, os últimos dez foram dedicados à Amazônia. Já escreveu seis livros só sobre a região. “E sabe o que é curioso?”, diz, “meus livros são muitos mais lidos lá no Sul do que aqui [no Amazonas] e fora do Brasil do que no Brasil. Tem um grande desinteresse do povo brasileiro pela Amazônia”. Apesar disso, Thiago não desanima.

Acabou de participar de um Congresso de poetas latino-americanos, também encerrou um evento da Unicamp em parceria com a UNESCO, fez ainda um pronunciamento durante um simpósio com doze intelectuais. Foi o último a falar e impressionou. “Venho armado de amor para trabalhar cantando na construção do amanhã. Amor dá tudo que tem, reparto a minha esperança e planto a claridade de um verde novo que vem. Não tenho caminho novo, o que tenho de novo é o jeito de caminhar. Porque com a dor dos deserdados, com o sonho escuro da criança que dorme com fome e com a árvore querida da minha infância que morreu queimada, eu aprendi que o mundo não é só meu, mas, sobretudo aprendi que na verdade o que importa, antes que a vida apodreça, é trabalhar na mudança do que eu preciso mudar. Cada um fazer a sua parte, cada qual na sua vez, cada qual no seu lugar”.

As palavras bonitas são o último clamor de um homem que já desistiu da humanidade. É que muita gente sofre de uma doença que poucos conhecem: a “assimesmite”. “Sabe o que é assimesmite? É quando alguém diz que o governador tem caixa dois e você responde ‘é assim mesmo’. Não pode ser assim mesmo”. Um amigo já havia lhe alertado que “el Brasil camina peligrosamente para la perda de la ética”. Foi Gabriel García Márquez. Thiago tenta combater esse vírus que assola a humanidade e por isso com suas mais de oito décadas de vida, só resta a ele agora falar para os que ainda não adoeceram. Por isso, quando foi convidado para participar da Rio+20,  só concordou se fosse para falar para os jovens. Foram dois dias à frente de mais de quatrocentas pessoas. “Foi uma forma de pedido para que não acontecesse aqui o que aconteceu lá [em Copenhague no ano de 2010].

Ao conversar só com os mais novos Thiago levou esperança e o brilho nos olhos de quem viu os anos passando e as mudanças na floresta acontecendo. “A gente vai lutar para que com essa Rio +20 se continue a exigir dos chefes de estado o que é preciso para que se amenize as consequências”. Se a Rio+20 não tiver os resultados que espera, não tem problema, Thiago continua tentando com outras crianças e adolescentes por aí.

A conversa só foi interrompida quando uma turma de pequenos estudantes chegou perto de Thiago. Queriam autógrafos e uma palavra daquele que é considerado o maior escritor do estado do Amazonas. Emocionado por ter leitores tão novos, fez um pedido para que cuidassem do planeta. Todos prometeram fazer sua parte. E ali, passou o cansaço de Thiago de Mello.

É, nem o peso de 86 anos nas costas cansa Thiago. Aprendeu que existem moços velhos e velhos moços. Soube disso quando ouviu de um estudante o que ele desejava da vida. Disse que queria ficar rico, que já tinha o projeto da casa dos sonhos, já tinha dois empregos oferecidos por multinacionais, que ia mandar os filhos estudar na Suíça enquanto passeava “naquele seu rio grande”. Aí Thiago perguntou “e os outros?”. Bem, os outros que se virem, disse o jovem já velho. Calmo como sempre, sem nem titubear, Thiago rebateu: “olha, as neves já caíram sobre a minha cabeça, mas eu sou muito mais jovem do que tu. Que pena que tu já envelheceste, só pensas em ti mesmo. Porque eu quero mudar, eu trabalho pela esperança e quando chega o fim do dia eu acho que fiz minha parte”.

Gula ou luxúria?

Lygia Pape foi gravadora, escultora, pintora, ou seja, uma artista multimídia que, no fim dos anos 50, se identificou com o movimento neoconcreto. Por ter atuado em diferentes linguagens e suportes e integrado questionamentos estéticos e éticos, é lembrada como um dos principais nomes do experimentalismo brasileiro.

Sua trajetória teve início na segunda metade do século XX, momento em que o Brasil passava por transformações no contexto político e também artístico. O país sofria um processo de modernização e início da independência em relação às influências européias. O trabalho de Lygia avançou nesse sentido de modernização: defender uma nova utilização da linguagem e ainda a participação mais ativa do espectador na obra.

Partindo dessas ideias, a artista rompeu com neoconcretismo em 1963 e foi nesse momento que a trajetória dela se fundiu com o meio cinematográfico.  Entre os anos de 1967 e 1976, quase uma dezena de filmes foram realizados.

“Eat me” (1976) foi rodado em Super-8. Na época, filmes nesse estilo ficaram populares porque, diferentemente do cinema convencional, traziam noções de leveza e facilidades técnicas como a visão direta do foco do visor e a incorporação do zoom, com tremidos e imagens desfocadas.

Nos dezesseis minutos de projeção de “Eat me”, o espectador assiste a uma série de imagens que remetem ao universo erótico: uma boca masculina, com bigode e barba, que chupa uma pedra vermelha e mostra, repetidas vezes, para a câmera em close e, intercalando, o público vê ainda a imagem de uma boca feminina. O som ao fundo é uma sequência de gemidos sexuais femininos, quando não se ouve a narração em vários idiomas da pergunta “luxúria ou gula?”.

O projeto “Eat me: a gula ou a luxúria?” trouxe à tona a exploração da imagem da mulher na sociedade de consumo. Quando associa as imagens de bocas com o órgão genital feminino, Lygia critica como a mulher é rebaixada à condição de objeto. Uma outra possibilidade de entendimento sobre a película é perceber que a indefinição do que se vê projetado – ora remete ao órgão genital  ora a uma boca – faz o público se sentir constrangido. Tal fato reforça como se dá a relação do homem com a sexualidade e tudo não passa de pura imaginação, já que o filme não fala de sexo, somente tem um ritmo sexual.

Essa nova forma de estruturar uma crítica à sociedade alcança novos parâmetros porque mesmo confundindo os sentidos do espectador, Lygia consegue comunicar o que quer e ao mesmo tempo deixa o espectador livre para criar seus próprios entendimentos.

Uma das principais artistas contemporâneas do Brasil

Qual o seu temperamento?

De forma global, o temperamento é um estilo pessoal interno, a base do que realmente somos: o que pensamos e sentimos, desejamos ou necessitamos, o que falamos e o que fazemos. A maioria dos psicólogos classifica 4 tipos/perfis de temperamentos principais, que podem ser agrupados entre si, perfazendo um total de 16 combinações possíveis.

Todos nós, herdamos um temperamento dos nossos pais. Ele é a combinação de características que consciente ou inconsciente, afetam as nossas atitudes no dia a dia. Estas características do temperamento, podem e devem ser controladas, mas também podem durar algum tempo ou até uma vida inteira. Tudo depende da intensidade de como lidamos com o nosso temperamento.

No entanto, não é somente o temperamento que influencia, diversos fatores como a personalidade, a socialização, o caráter e a motivação interna têm o seu peso no percurso da vida. Diversos psicólogos referem que já nascemos com características que nos definem, mas que estas podem ser modificadas e até aperfeiçoadas.

Faça o teste e descubra qual o seu temperamento.

FONTE: Site Educamais.com

O que isso quer dizer?

O passado  está inserido no presente. A arte é o maior exemplo disso. O motivo?

Ao observar um obra de arte, o simples fato de pensar o seu autor é também um movimento que ‘leva para trás’. E isso faz surgir elementos de um tempo anterior na esfera da atualidade.

Esse jogo entre passado e presente está enunciado nas experiências de dois homens do século XX: Marcel Duchamp e Andy Warhol. Apesar de ter sido um artista discreto, tímido, que nem sequer se denominava artista – e por isso é pouco conhecido -, Duchamp (1887 – 1968) foi um fenônemo. Sem querer, ele conseguiu expressar o modelo de comportamento que dialoga com as expectativas contemporâneas (maior liberdade na hora de fazer arte). Quando divulgou a Roda de Bicicleta (1913) e a Fonte (1917), esse “antiartista”modificou a noção do que torna um objeto arte.

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A Roda de Bicicleta nada mais é do que um simples objeto que qualquer pessoa pode ter e manipular. Duchamp levou esse mesmo objeto para o espaço de um Salão de Arte. Sempre que questionado: “Mas qual a mensagem que  o Sr. quer passar com esta obra?” Duchamp respondia: “ Nenhuma! É apenas uma roda de bicicleta em cima de uma cadeira”

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E a Fonte? É na verdade um mictório de porcelana. Sim, isso mesmo. (Daqueles que se vê em banheiros masculinos).Então, isso é arte?

Segundo Anne Cauquelin, ao expor “objetos prontos”já existentes e utlizados na vida cotidiana, ele fez notar que é o lugar de exposição que torna esses objetos obras de arte. Com essa atitude questionadora dos valores que são dados à arte, Duchamp alcançou um patamar que não queria. Passou a ser reconhecido como artista – e revolucionário.

Já o emblemático Andy Warhol (1928 – 1987) conseguiu exatamente o que almejava: ser um astro, uma pessoa pública e fazer seu nome ser tão conhecido quanto a imagem que assinava. O próprio nome de seu ateliê (Factory) deixa explícita essa mentalidade de mercado. Foi daí que surgiram as suas séries de repetições de produtos de consumo.

ImagemObjetos como latas de sopa, garrafas de Coca-Cola e recortes de jornais viraram obras de arte mas, são as Marylins em cores variadas a marca forte do artista.

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Essa saturação de imagens tão comuns no dia-a-dia causa impacto sobre o público e é somente isso que importa para Warhol. Não há mensagem implícita nem crítica. A pergunta que tanta gente se faz diante de um obra do tipo “o que isso quer dizer” não cabe nesse tipo de arte – contemporânea. Elas simplesmente querem dizer o que elas dizem.

“Mecânica das borboletas” reúne rock, literatura beatnik e o valor dos sonhos da adolescência

A condição humana. Esse é o elemento-chave do espetáculo “A mecânica das borboletas”. A peça, com texto de Walter Daguerre e direção de Paulo Moraes, estreou esse mês no Teatro Anchieta, do SESC Consolação de São Paulo e fica em cartaz até dia 27 de maio.

Daguerre explica que escreveu a “Mecânica das borboletas” depois de refletir sobre uma contradição. Como é possível o ser humano querer um mundo cheio de novidades, tecnologias, um lugar onde as “coisas acontecem”, e ao mesmo tempo buscar se ver livre disso tudo isso e poder “encerrar-se num único lugar, onde a noite é feita para dormir”? Essa ambivalência é a questão central do espetáculo.

O enredo gira em torno da história de dois irmãos gêmeos, Remo e Rômulo. Tudo começa quando Rômulo volta pra casa depois de 20 anos. O personagem, interpretado por Eriberto Leão, havia fugido ainda adolescente, levando consigo as economias da família, para viajar pelo mundo e descobrir a si mesmo. Duas décadas depois, já como um famoso escritor de ficção científica, ele resolve “voltar ao quilômetro zero”, sua terra natal, pois acredita ser essa a solução para uma crise de inspiração.

Quando retorna percebe que as coisas não são mais as mesmas. O pai não suportou a ausência do filho e morreu, a mãe, Rosália (Suzana Faini) enlouqueceu com a morte do marido, e o irmão Remo deixou de lado os sonhos de adolescente para assumir a responsabilidade de cuidar da oficina da família. Além disso, casou-se com Lisa (Ana Kutner), ex-namorada de Rômulo.

Com o retorno inesperado de Rômulo, a família se vê envolta em vários conflitos, principalmente entre os gêmeos. Remo (com ótima interpretação de Otto Jr) guarda a mágoa de o irmão não tê-lo levado para as aventuras pelo mundo, e se questiona se depois de 20 anos, ainda há tempo para realizar esse sonho.

Em vários momentos, Mecânica das borboletas chama a atenção por trazer ao palco citações literárias distintas, mas que dialogam entre si. Trechos do clássico beatnik “On the Road” de Jack Kerouac, até Fausto, do escritor alemão Goethe. As referências musicais também seguem a mesma tendência: vão do rock da banda The Doors para a canção “Al Otro Lado Del Rio”, de Jorge Drexler, trilha do filme “Diário de Motocicleta” de Walter Salles.

O gostoso da peça é o espectador perceber que, aos poucos, as diferenças e semelhanças entre os gêmeos nada mais são do que o eterno conflito dos seres humanos: o sonho de querer ir para longe e, ao mesmo tempo, o desejo de ter um porto seguro, um lar.

“Só se morre uma vez mas é pra sempre”

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Escritor, dramaturgo, humorista, desenhista, cronista, roteirista, jornalista e tantos outros em um só. Esse foi Millôr Fernandes., um homem que ensinou várias gerações a pensar e mais, a criticar.

Millôr nasceu na verdade, Milton. Mas a caligrafia daquela época, tão elaborada acabou por criar confusão e a letra L seguida da letra T, viraram os “éles” unidos, o N do final, parecia mais um R. Assim ficou. E logo toda a família aceitou o destino e o nomeou como queria o cartório.

Millôr morreu nessa terça-feira, 27 de março de 2012, aos 87 anos e em casa, no bairro de Ipanema (RJ). Ele teve falência múltipla dos órgãos.

Foi uma pessoa multimídia, muito antes dessa palavra começar a circular por aí. E claro, marcou presença em importantes veículos impressos no Brasil, tais como O cruzeiro, Veja, Jornal do Brasil e o alternativo e polêmio O Pasquim.

Mas, uma curiosidade: poucos sabem que foi também Millôr um dos idealizadores do frescobol (esporte de praia jogado por duas pessoas).

Taí, Millôr foi praticamente um “Bombril”, multiuso, multiprofissional.

Cinco anos em 240 páginas

“Sei que amanhã, quando eu morrer, meus amigos vão dizer que eu tinha um bom coração. Alguns até irão chorar e querer me homenagear, fazendo de ouro um violão. Mas depois que o tempo passar sei que ninguém vai se lembrar que eu fui embora. Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade. Quero preces e nada mais…”

Mesmo depois de dezoito cirurgias contra o câncer de abdômen, era assim que, ao fim da vida, José Alencar encarava os fatos, sussurrando versos da música “Quando eu me chamar saudade”de Nelson Cavaquinho.

Enquanto ele cantava, quem ouvia era um jornalista. Esse foi um dos muitos encontros de uma improvável amizade entre dois homens públicos que viviam cada um no seu canto. Foi uma das provas da relação entre dois Josés: o jornalista José Roberto Burnier, da TV Globo, com quase trinta anos de carreira e José Alencar Gomes da Silva, ou simplesmente José Alencar, ex-vice-presidente da República.Imagem

Tudo começou quando de um lado, o José jornalista recebeu a missão de acompanhar e fazer a cobertura da luta de Alencar contra um inimigo incansável, o histiosarcoma, doença rara e agressiva. De outro, o José político, empresário e guerreiro, que tinha muita história pra contar em pouco tempo e por isso decidiu arriscar abrir sua intimidade para um, até então, estranho.

Com uma mesma meta – contar tudo para o público – esses homens cultivaram em segredo o respeito de muita gente e de um pelo outro. Burnier a tarefa mais difícil ainda estava por vir: cativar aquele senhor para lhe contar o que viu e conseguiu na vida com os poucos anos que lhe restavam.Imagem

Como disse Caco Barcellos no prefácio do livro, “esta é a história de uma grande amizade que nasceu com os dias contados”.

Foram cinco anos de amizade e 79 anos de uma vida inteira contados em 240 páginas. Foi o depoimento de uma saga que começou na Zona da Mata mineira, numa infância pobre e sem perspectiva, passou pelo crescimento como empresário da indústria têxtil, das paixões pelo mundo político até se tornar vice de um dos mais carismáticos presidentes que o Brasil já teve: Luís Inácio Lula da Silva, o Lula.Imagem

Os dois tinham pressa. Sabiam que restava pouco tempo. Burnier ansiava pelas entrevistas. Ele precisava saber mais para compor o livro. Alencar aproveitava para reviver as memórias e assim, se fortalecia para mais um dia de combate nessa guerra invisível e imprevisível.

O homem que conseguia concluir um percurso de seis quilômetros em trinta minutos viveu intensamente e não parou até o seu último dia de vida, em 29 de março de 2011.

José Alencar, ou Zezé (como era conhecido na infância e adolescência), saiu de casa ainda pequeno, com apenas três mudas de roupa, um sapato de sola furada, nenhum tostão no bolso mas muita vontade de crescer. E cresceu. Dali em diante não voltou. Abriu sua própria lojinha, virou empresário conhecido, conseguiu criar um império na indústria têxtil (hoje o grupo industrial ainda existe com mais de 15 mil funcionários) e tornou-se um homem da política.

Em 2009, a história desse brasileiro começou a se transformar nas palavras do livro “Os últimos passos de um vencedor”. O que ninguém imaginava é que, as letras dessa obra seriam realmente, os últimos passos dele.

SERVIÇO:

Título: Os últimos passos de um vencedor: entre a vida e a morte, o José Alencar que conheci.

Autor: José Roberto Burnier

Editora: Globo

Ano: 2011

Preço: R$30

A arte da ruptura

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Está tudo misturado, isso hoje em dia. Mas o que está assim, unido, que não dá pra separar? A vida, a leitura, o mundo, a arte. A forma de se fazer acontecer, de se escrever, de se expressar, de representar mudou. O que antes era como água e óleo num mesmo líquido viscoso, ou seja,impossível,  se tornou com os artistas da vanguarda uma alternativa, uma nova forma de ver.

E disso, surge um questionamento: para se enxergar o novo, do que se necessita? De novos olhos, diria alguém sensato.

Conseguir essa nova maneira de encarar o mundo e de encaixar as coisas nele não foi assim tão fácil. Mas os artistas revolucionários deixaram seu legado. Com eles as linguagens de ruptura não decepcionaram.

Está certo. Talvez tenham causado escândalos, polêmicas, desentendimentos, falhas na comunicação, mas, definitivamente, não decepcionaram.

O que quero dizer com isso?

Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Blaise Cendrars, Edgar Braga.

Não sou eu que quero dizer. Eles dizem. Na verdade, eles experimentam, brincam com a palavras, com os espaços, com os sentidos, com os significados. Bem, lá no fundo, eles brincam com o leitor.

Quem se permite essa leitura de múltiplos sentidos, se dá a chance ímpar de adentrar no entendimento de que a vírgula do texto está na pausa, de que o ponto está no silêncio, de que o virar a página está em escolher aleatoriamente o que vem a seguir. Achou pouco?

Uma leitura que te faz sentir uma cor, ouvir um cheiro, visualizar a palavra.

E isso tem nome: obra aberta ou vanguardas estéticas de ruptura. Nada mais do que procedimentos de renovação das linguagens da arte.

A importância: abrir leques e quebrar paradigmas tradicionais

Como saber se o que você lê é algo que se encaixa nessa probabilidade?

A linha perde o sentido. É como uma partitura musical. O “sentido” surge no “sentir”.