Profissão: apanhador (no campo de centeio)

O livro “o Apanhador no campo de centeio”, é um desses poucos que consegue nos faz sentir órfãos de pátria. Algo como ser devorado por palavras estrangeiras, que falam de uma realidade não vivida, não sonhada, não querida pela gente brasileira, mesmo que esteja tudo em português.

A obra é do norte americano, Jerome David Salinger (J.D Salinger) e foi escrita numa época distante, em 1951.

O apanhador se insere numa década de pós-guerra, em que as pessoas estão desiludidas, não mais querem lutar e se desgastar. O desejo maior é por uma vida tranqüila e – pior, ou melhor, dependendo do ponto de vista, uma vida sem ideais.

E quem vive esse mundo sem grandes esperanças pro futuro é o adolescente Holden Caulfield. Um garoto de 16 anos.

O Holden conta tudo em 1º pessoa, como numa conversa com o leitor. E uma conversa um tanto franca – nunca vi tanto pensamento íntimo revelado com tanta tranqüilidade.

O engraçado é que o desenrolar da história se passa somente em um final de semana, começando quando ele é expulso da escola e termina quando… é, bem, não vou contar.

A impressão que se dá é que não é um único final de semana. Diria meses, quem sabe até um ano.

Caulfield é um garoto bem diferente. É novo, mas já tem cabelos brancos, é magricela e alto. Não é daqueles que se olha e já dá pra dizer que é diferente, mas seus pensamentos, tão transparentes nas 205 páginas do livro, mostram que ele é marginal.

Marginal, por viver à margem. Não gosta de estudar. Reprovou em quatro das cinco matérias que fez na escola. Não acredita em Deus. Não acredita em nada. Não gosta dos pais. Não tem muitas ambições.

Então, o que ele faz é viver à procura de algo que ele possa ao menos suportar. Pensa em garotas, pensa em ligar para elas. Pensar em morar longe e até que planeja um futuro, só que meio sem pé nem cabeça.

No fundo, Caulfield é um garoto com medo dess tal de futuro. Tanto medo que se esconde dentro dele mesmo, afugentando qualquer um ou qualquer coisa que pudesse querer colocar ele dentro dos moldes tanto desejado por todos os pais da época. Um filho de terno e gravata, com filhos e esposa, salário robusto no final do mês e uma barriga não menos robusta pra alimentar. (não mudou muito!)

O livro escrito por Salinger apresentou os pensamentos secretos divididos por milhares de garotos e garotas nos anos 50, numa época em que a adolescência não tinha voz e suas características peculiares – hormônios, chatices e sonhos – não eram levadas em conta.

E o Apanhador no campo de centeio mostrou um mundo que até então era tabu. Porque para aquela sociedade você, com 15 ou 16 anos, não era nada além de um adulto com o corpo desengonçado.

As angústias, as irresponsabilidades, o senso de humor… tudo que envolve os anos difíceis da aquisição da maturidade foi narrado pelo Caulfield.

Um garoto que queria ser o apanhador no campo de centeio para apanhar as crianças que andassem a beira de precipícios e não deixasse que elas, desavisadas, caíssem.

Pra não deixar os jovens que vivem em épocas difíceis caiam em ciladas impostas pela sociedade.

Isso se aplica a nós também, não é?

> O estranho é que o livro foi escrito em 1951 e eu fui ler agora, em 2010,  e não é que o autor resolveu morrer? No dia em que eu terminava a leitura.

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