aprendendo a dessensibilizar-me

Pedro. O nome dele era esse. E o conheci de um jeito um tanto estranho. Deitado na calçada, com a roupa toda suja, parecia dormir, as pernas dobradas uma sobre a outra, parecia sentir frio. Foi quando olhei para o seu rosto. Moreno, barba por fazer, cabelos escuros e enrolados, pele mal lavada, parecia não tomar banho há muito tempo. Pedro, 44 anos. Não, ele não me falou a idade dele. Quem me falou foi o policial ou o perito do Instituto Médico Legal, nem me lembro. E o que isso quer dizer? Pedro estava morto.

Não o teria conhecido de outro jeito. Ele era morador de rua. Ficava ali pelas ruas próximas à Manaus Moderna, encostado nas muretas bem ao lado da penitenciária, mas do lado de fora do muro.  De acordo com o Augusto, outro morador de rua, ele não se drogava.. era o típico pé inchado, só ficava no álcool mesmo. Pegava verduras na feira, vendia para comprar corote e tomar o dia todo.  E essa foi a fraqueza dele. Deve ter bebido tanto que não percebeu a chegada de pessoas estranhas. E pronto, levou as facadas. O fim dos dias longos ao lado do corote e da penitenciária.

É, Pedro, vou te contar. Pelo que os policiais falaram, muito provavelmente a sua morte serviu para fortalecer futuros marginaizinhos, que precisam matar para saber se levam jeito pra isso. Na mente deles nada melhor do que um mendigo bêbado encostado numa mureta dormindo, não?

Na mente do Pedro, um descanso.

Na minha mente, um momento para começar a aprender a olhar um corpo morto e ver mais do que a aparência.

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