Cinco anos em 240 páginas

“Sei que amanhã, quando eu morrer, meus amigos vão dizer que eu tinha um bom coração. Alguns até irão chorar e querer me homenagear, fazendo de ouro um violão. Mas depois que o tempo passar sei que ninguém vai se lembrar que eu fui embora. Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade. Quero preces e nada mais…”

Mesmo depois de dezoito cirurgias contra o câncer de abdômen, era assim que, ao fim da vida, José Alencar encarava os fatos, sussurrando versos da música “Quando eu me chamar saudade”de Nelson Cavaquinho.

Enquanto ele cantava, quem ouvia era um jornalista. Esse foi um dos muitos encontros de uma improvável amizade entre dois homens públicos que viviam cada um no seu canto. Foi uma das provas da relação entre dois Josés: o jornalista José Roberto Burnier, da TV Globo, com quase trinta anos de carreira e José Alencar Gomes da Silva, ou simplesmente José Alencar, ex-vice-presidente da República.Imagem

Tudo começou quando de um lado, o José jornalista recebeu a missão de acompanhar e fazer a cobertura da luta de Alencar contra um inimigo incansável, o histiosarcoma, doença rara e agressiva. De outro, o José político, empresário e guerreiro, que tinha muita história pra contar em pouco tempo e por isso decidiu arriscar abrir sua intimidade para um, até então, estranho.

Com uma mesma meta – contar tudo para o público – esses homens cultivaram em segredo o respeito de muita gente e de um pelo outro. Burnier a tarefa mais difícil ainda estava por vir: cativar aquele senhor para lhe contar o que viu e conseguiu na vida com os poucos anos que lhe restavam.Imagem

Como disse Caco Barcellos no prefácio do livro, “esta é a história de uma grande amizade que nasceu com os dias contados”.

Foram cinco anos de amizade e 79 anos de uma vida inteira contados em 240 páginas. Foi o depoimento de uma saga que começou na Zona da Mata mineira, numa infância pobre e sem perspectiva, passou pelo crescimento como empresário da indústria têxtil, das paixões pelo mundo político até se tornar vice de um dos mais carismáticos presidentes que o Brasil já teve: Luís Inácio Lula da Silva, o Lula.Imagem

Os dois tinham pressa. Sabiam que restava pouco tempo. Burnier ansiava pelas entrevistas. Ele precisava saber mais para compor o livro. Alencar aproveitava para reviver as memórias e assim, se fortalecia para mais um dia de combate nessa guerra invisível e imprevisível.

O homem que conseguia concluir um percurso de seis quilômetros em trinta minutos viveu intensamente e não parou até o seu último dia de vida, em 29 de março de 2011.

José Alencar, ou Zezé (como era conhecido na infância e adolescência), saiu de casa ainda pequeno, com apenas três mudas de roupa, um sapato de sola furada, nenhum tostão no bolso mas muita vontade de crescer. E cresceu. Dali em diante não voltou. Abriu sua própria lojinha, virou empresário conhecido, conseguiu criar um império na indústria têxtil (hoje o grupo industrial ainda existe com mais de 15 mil funcionários) e tornou-se um homem da política.

Em 2009, a história desse brasileiro começou a se transformar nas palavras do livro “Os últimos passos de um vencedor”. O que ninguém imaginava é que, as letras dessa obra seriam realmente, os últimos passos dele.

SERVIÇO:

Título: Os últimos passos de um vencedor: entre a vida e a morte, o José Alencar que conheci.

Autor: José Roberto Burnier

Editora: Globo

Ano: 2011

Preço: R$30

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