Gula ou luxúria?

Lygia Pape foi gravadora, escultora, pintora, ou seja, uma artista multimídia que, no fim dos anos 50, se identificou com o movimento neoconcreto. Por ter atuado em diferentes linguagens e suportes e integrado questionamentos estéticos e éticos, é lembrada como um dos principais nomes do experimentalismo brasileiro.

Sua trajetória teve início na segunda metade do século XX, momento em que o Brasil passava por transformações no contexto político e também artístico. O país sofria um processo de modernização e início da independência em relação às influências européias. O trabalho de Lygia avançou nesse sentido de modernização: defender uma nova utilização da linguagem e ainda a participação mais ativa do espectador na obra.

Partindo dessas ideias, a artista rompeu com neoconcretismo em 1963 e foi nesse momento que a trajetória dela se fundiu com o meio cinematográfico.  Entre os anos de 1967 e 1976, quase uma dezena de filmes foram realizados.

“Eat me” (1976) foi rodado em Super-8. Na época, filmes nesse estilo ficaram populares porque, diferentemente do cinema convencional, traziam noções de leveza e facilidades técnicas como a visão direta do foco do visor e a incorporação do zoom, com tremidos e imagens desfocadas.

Nos dezesseis minutos de projeção de “Eat me”, o espectador assiste a uma série de imagens que remetem ao universo erótico: uma boca masculina, com bigode e barba, que chupa uma pedra vermelha e mostra, repetidas vezes, para a câmera em close e, intercalando, o público vê ainda a imagem de uma boca feminina. O som ao fundo é uma sequência de gemidos sexuais femininos, quando não se ouve a narração em vários idiomas da pergunta “luxúria ou gula?”.

O projeto “Eat me: a gula ou a luxúria?” trouxe à tona a exploração da imagem da mulher na sociedade de consumo. Quando associa as imagens de bocas com o órgão genital feminino, Lygia critica como a mulher é rebaixada à condição de objeto. Uma outra possibilidade de entendimento sobre a película é perceber que a indefinição do que se vê projetado – ora remete ao órgão genital  ora a uma boca – faz o público se sentir constrangido. Tal fato reforça como se dá a relação do homem com a sexualidade e tudo não passa de pura imaginação, já que o filme não fala de sexo, somente tem um ritmo sexual.

Essa nova forma de estruturar uma crítica à sociedade alcança novos parâmetros porque mesmo confundindo os sentidos do espectador, Lygia consegue comunicar o que quer e ao mesmo tempo deixa o espectador livre para criar seus próprios entendimentos.

Uma das principais artistas contemporâneas do Brasil

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