O velho moço

Nem a diferença de fuso horário atrapalhou os planos desse senhor de 86 anos. Da Áustria, seguiu para o Chile, de lá para a Argentina, depois o Rio de Janeiro, mais três horas e meia até Manaus no Amazonas e ainda algumas horas de barco até a cidade de Barreirinha, a 372 km da capital amazonense. Tudo isso em duas semanas. “Sabe, estou cansado, mas nem por isso paro quieto”. Thiago de Mello não tem problema em ir de uma megalópole do outro lado do mundo a seu pequeno município no meio da floresta. “Eu viajo de canoa, viajo de avião, viajo a cavalo, viajo de navio”.

É um homem sem frescuras. Exceto pela única a que se dá direito: vestir-se sempre de branco. Thiago nasceu em 1926 e nessa época o branco era cor que representava o luxo e isso sequer passava pela cabeça dele. Se fosse em sua cidade natal, usar ou não usar branco não faria a menor diferença. Mas era Manaus. E na “cidade grande”, onde Thiago passou a adolescência, era cultura usar o branco para o casamento, para o namoro, para o batizado, “cada solenidade era o branco”. Ficava olhando as mocinhas alvas e os moços galanteadores, todos em seus trajes mais claros possíveis. Sempre quis também. “Mas, é que eu era pobre e não tinha dinheiro pra botar minha roupa branca pra ir pra festa aí ia com a farda do ginásio.” O dia em que usou pela primeira vez foi uma felicidade só. Depois disso, não quis mais tirar a roupa e nem trocar de cor.

Da brincadeira do branco, a cor trouxe tanta paixão que se tornou até verso de poema. “Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida o uso do traje branco”, diria Thiago em 1977. O que não imaginou, era que tal declaração faria desse poema o mais conhecido de sua longa carreira de escritor. Estatutos do Homem já foi traduzido para mais de trinta idiomas, ganhou edição de luxo e até hoje encanta o mundo. Mas esse negócio todo de ter reconhecimento, de ter ganhado muitos prêmios, inclusive o Jabuti, não deslumbra esse senhor de palavras simples. “Pra mim isso é pequenininho. Não vale nada.”

Se qualquer pessoa tem um livro de Thiago de Mello, leu e gostou “isso é o mais importante”. Teimoso desde sempre, foi na contra mão de outros poetas famosos e eis que deixou de lado essa ostentação de títulos. Abriu espaço para somente um que está pendurado na parede de sua casa, mas só porque lhe lembra um ídolo da pré-adolescência. Aos doze anos de idade, já idolatrava Tiradentes “pela coragem dele”. Não esconde a alegria que seria conhecer aquele que, como ele mesmo afirma com vontade, “foi o primeiro a ter a ideia de fazer do país uma nação”. Por isso quando, muitos anos mais tarde, recebeu a Grande Medalha da Inconfidência Mineira das mãos de Tancredo Neves, na época ainda governador do estado de Minas Gerais, para ele foi como se tivesse ficado um pouco mais perto daquele a quem tanto admira. Mas isso foi há mais de vinte anos.

Prêmio recente veio no fim do ano passado no Rio de Janeiro, durante uma exposição de um artista que gosta muito. Thiago estava lá, aproveitando o vernissage quando chegou perto um casal e a mulher declarou “que felicidade, nós temos todos os seus livros, mas nenhum com a sua assinatura, por sorte temos um exemplar aqui”. Enquanto ele escrevia para o casal seu nome com letras infantis na primeira página do livro, a mulher deixou escapar a declaração mais bonita que Thiago já havia escutado. Ela e o marido gostaram tanto do “Estatutos do Homem” que na hora do casamento pediram para o padre ler umas estrofes do poema no lugar do juramento comum. “Quase que perguntei se de noite foi bom”. A moça, como se tivesse ouvido o pensamento dele falou logo: “foi tão bom que aqui está esse rapaz de quatorze anos que chama Thiago por sua causa”. Não dá para negar: deve ser uma responsabilidade enorme ter alguém com o nome em sua homenagem. “Esse é o prêmio que faz com que eu escreva melhor”, declarou e depois se calou. Foram longos segundos de silêncio…

“Sabe, eu estou cansado”, falou novamente. Pareceu uma eternidade até Thiago falar de novo. A voz se arrastava num tom tão baixo que era difícil entender. Como se fosse preciso falar baixinho e devagar para virar um mantra. Ou talvez fosse simplesmente o cansaço de tantas viagens seguidas.

Quem sabe também esse ir devagar quase parando fosse por conta do calor por que era uma manhã quente, como quase todas as outras na capital amazonense. Ainda que estivesse dentro de um parque florestal cheio de árvores e sombra, [Bosque da Ciência do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, INPA], o calor deixava o ar difícil de respirar e por conta disso ele se lembrou da sua maior preocupação na atualidade: o aquecimento do planeta Terra e as consequências disso para a floresta amazônica. “Eu não defendo a floresta porque eu nasci nela não. Tenho um encantamento. Eu defendo porque é o maior manancial de biodiversidade e que não é estudado”.

Thiago não se cansa de falar da floresta. A cada minuto surge um novo pensamento. “A floresta é a maior fonte de vida”. Ponto. “Temos que conscientizar e parar esses empresários perniciosos, cheios de cobiça que queimam a floresta para criar gado e plantar soja.” Ponto. “É um crime ambiental contra a vida”. Ponto final.

Esse discurso tem um motivo digno e antigo. Depois da temporada em que morou na Alemanha e na França, não agüentou o fato das universidades desses dois países europeus conhecerem muito mais sobre a depredação da floresta e sobre como os índios Ianomâmi estavam sendo destruídos, do que ele próprio que era do Brasil. Foi então que decidiu voltar para Barreirinha, cidade no meio da floresta, banhada pelo Rio Amazonas. “Eu fui pra floresta para escrever, não só para escrever sobre a floresta enquanto natureza vegetal, escrever sobre a natureza humana, sobre a gente da floresta”. Mesmo contra a vontade de muita gente, Thiago voltou pro lugar onde nasceu. O editor dele insistia em dizer “mas lá ninguém lê” e Thiago, firme na decisão, falava: “o Brasil inteiro é um dos países mais atrasados em leitura, não é só lá”. E lá foi ele, aprender com os ribeirinhos que mal sabiam ler e escrever, mas tinham muito a ensinar sobre a floresta.

Dos sessenta e cinco anos como escritor, os últimos dez foram dedicados à Amazônia. Já escreveu seis livros só sobre a região. “E sabe o que é curioso?”, diz, “meus livros são muitos mais lidos lá no Sul do que aqui [no Amazonas] e fora do Brasil do que no Brasil. Tem um grande desinteresse do povo brasileiro pela Amazônia”. Apesar disso, Thiago não desanima.

Acabou de participar de um Congresso de poetas latino-americanos, também encerrou um evento da Unicamp em parceria com a UNESCO, fez ainda um pronunciamento durante um simpósio com doze intelectuais. Foi o último a falar e impressionou. “Venho armado de amor para trabalhar cantando na construção do amanhã. Amor dá tudo que tem, reparto a minha esperança e planto a claridade de um verde novo que vem. Não tenho caminho novo, o que tenho de novo é o jeito de caminhar. Porque com a dor dos deserdados, com o sonho escuro da criança que dorme com fome e com a árvore querida da minha infância que morreu queimada, eu aprendi que o mundo não é só meu, mas, sobretudo aprendi que na verdade o que importa, antes que a vida apodreça, é trabalhar na mudança do que eu preciso mudar. Cada um fazer a sua parte, cada qual na sua vez, cada qual no seu lugar”.

As palavras bonitas são o último clamor de um homem que já desistiu da humanidade. É que muita gente sofre de uma doença que poucos conhecem: a “assimesmite”. “Sabe o que é assimesmite? É quando alguém diz que o governador tem caixa dois e você responde ‘é assim mesmo’. Não pode ser assim mesmo”. Um amigo já havia lhe alertado que “el Brasil camina peligrosamente para la perda de la ética”. Foi Gabriel García Márquez. Thiago tenta combater esse vírus que assola a humanidade e por isso com suas mais de oito décadas de vida, só resta a ele agora falar para os que ainda não adoeceram. Por isso, quando foi convidado para participar da Rio+20,  só concordou se fosse para falar para os jovens. Foram dois dias à frente de mais de quatrocentas pessoas. “Foi uma forma de pedido para que não acontecesse aqui o que aconteceu lá [em Copenhague no ano de 2010].

Ao conversar só com os mais novos Thiago levou esperança e o brilho nos olhos de quem viu os anos passando e as mudanças na floresta acontecendo. “A gente vai lutar para que com essa Rio +20 se continue a exigir dos chefes de estado o que é preciso para que se amenize as consequências”. Se a Rio+20 não tiver os resultados que espera, não tem problema, Thiago continua tentando com outras crianças e adolescentes por aí.

A conversa só foi interrompida quando uma turma de pequenos estudantes chegou perto de Thiago. Queriam autógrafos e uma palavra daquele que é considerado o maior escritor do estado do Amazonas. Emocionado por ter leitores tão novos, fez um pedido para que cuidassem do planeta. Todos prometeram fazer sua parte. E ali, passou o cansaço de Thiago de Mello.

É, nem o peso de 86 anos nas costas cansa Thiago. Aprendeu que existem moços velhos e velhos moços. Soube disso quando ouviu de um estudante o que ele desejava da vida. Disse que queria ficar rico, que já tinha o projeto da casa dos sonhos, já tinha dois empregos oferecidos por multinacionais, que ia mandar os filhos estudar na Suíça enquanto passeava “naquele seu rio grande”. Aí Thiago perguntou “e os outros?”. Bem, os outros que se virem, disse o jovem já velho. Calmo como sempre, sem nem titubear, Thiago rebateu: “olha, as neves já caíram sobre a minha cabeça, mas eu sou muito mais jovem do que tu. Que pena que tu já envelheceste, só pensas em ti mesmo. Porque eu quero mudar, eu trabalho pela esperança e quando chega o fim do dia eu acho que fiz minha parte”.

One response

  1. Flávia, sem querer descobri seu blog, e sem querer, também, descobri que temos alguns amigos em comum neste mundo virtual (Facebook). Ao ler o texto acima, fiquei profudamente tocada pela forma em que falas do poeta, poeta esse, do qual sou totalmente fã. Estou admirada pelo seu talento e mais ainda, depois, conhecendo um pouco de você pela internet, pela sua dedicação à cultura, leitura, estudo… coisa rara nesses tempos! Seu exemplo tem servido de inspiração. Boa sorte e muito sucesso. Tens aqui uma leitora e admiradora!

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